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Entrevista para Jornal do Brasil, em 16 de outubro de 2004  

Façam suas apostas

Ganhar ou perder é uma maneira de lidar com os altos e baixos da vida

Clarisse Meireles

Ah, mas isso é coisa de criança! Cedo ou tarde, ali pela adolescência, todo mundo se depara com a sentença de morte da própria infância. De repente, o mundo passa a exigir que se deixe para trás uma série de ''coisas de criança'', que não condizem com uma postura mais madura, de crescentes responsabilidades - que hoje já alcançam muitos pequenos, às voltas com agendas de verdadeiros executivos. Na idade adulta, numa troca compulsória, saem os jogos e as atividades lúdicas em geral e entram trabalho, trabalho e trabalho. Para se ter uma idéia, o segmento de jogos para jovens e adultos corresponde a apenas 20% das vendas da Grow, a maior fabricante de jogos do país. Desses, o mais vendido é War, com 120 mil unidades por ano - um jogo de guerra e conquista, cujo recorde pode render boas teses sobre o ser humano. Em seguida, vêm Perfil, Imagem & Ação e Master.

Felizmente, muitos adultos já aprenderam que, para recarregar as baterias, nada é melhor do que brincar. ''O que causa cansaço e estresse não é o excesso de trabalho, mas a falta de diversão'', defende a psicopedagoga Tânia Ramos Fortuna, coordenadora do projeto ''Quem quer Brincar?'', da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo ela, mais do que os momentos de ócio, conceito muito em voga depois de consagrado pelo sociólogo italiano Domenico de Masi, o ato de brincar afasta estresse e ansiedade, e exercita a criatividade.

Para o psicanalista inglês Donald Winnicott, a brincadeira do adulto está relacionada a sua capacidade de lidar, de forma lúdica, com seus próprios pensamentos, e é um espaço fundamental para exercer a criatividade e o humor. São estas ocasiões de descontração, lembra Tânia, que permitem subverter o tempo cronológico, linear. E sentimos o kairós, que, segundo o conceito grego, é um tempo sem tempo, cuja passagem desafia o relógio. ''É aquela coisa: parece que as horas passam mais rápido, ou mais devagar'', explica a pesquisadora.

No Rio, uma parada obrigatória para os fãs de jogos são os pubs. No Shenanigan's da Barra e de Ipanema, por exemplo, o cardápio de opções vai de dardos a sinuca, passando pelo já tradicional quiz, jogo de perguntas de conhecimentos gerais que lota a casa de grupos ávidos por testar sua cultura - muitas vezes inútil, o que deixa a coisa ainda mais divertida. A cada semana, 25 grupos de quatro pessoas se esforçam em responder às 20 perguntas, e o participantes, quase sempre jovens, muitos turistas, mostram-se concentrados como se disputassem o torneio de suas vidas.

As questões abrangem de nomes de atores e personagens de filmes B até informações surreais como a melhor forma de fazer com que uma meia pare de desfiar (esmalte de unha, para quem não sabe) até o significado da sigla BMW (Bayerische Flugzeug-Werke). Os prêmios disputados são uma rodada de bebidas, um aperitivo, uma camisa do bar e R$ 200 de bônus para ser usado na casa. ''Mas o que menos importa é o prêmio. Gosto mesmo da adrenalina'', diz o engenheiro carioca Alexandre Espínola, 33, que gosta da descontração e jura que não vai no bar para azarar. Se é assim, pode-se dizer que Alexandre é um viciado em adrenalina. Um dos maiores habitués das mesas de Ipanema, Alexandre já venceu a competição 26 vezes (!), e na segunda-feira estava no lugar acompanhado dos amigos Yuri Justiniano, economista boliviano, e Shannon Toginni, analista financeira americana, ambos de 34 anos, que trabalha no Rio. ''Este jogo é também uma forma de se manter atualizado'', diz Yuri. ''A vida tem que ser balanceada entre trabalho e diversão'', opina.

Este equilíbrio é hoje uma luta diária de quem chega do trabalho esgotado, mas quase se obriga a fazer algum ''programa'' para não se sentir totalmente escravizado. Mas nem sempre houve essa dicotomia lazer versus trabalho. Até a Idade Média, trabalho e divertimento eram bastante misturados. As crianças estavam sempre com os adultos, tanto nos momentos de trabalho, como nas horas de brincadeiras e festividades sazonais, competições e torneios. As refeições eram demoradas, festivas, com consumo de bebidas e descanso depois. ''Para se ter uma idéia'', diz a pesquisadora Tânia Fortuna, ''trabalhavam-se 700 horas por ano. Hoje, são em média 40 horas por semana, ou 1.800 horas anuais.'' Até meados do século passado, havia a ilusão de que, com a automação, o tempo de serviço diminuiria. Mas só aumentou. No mundo capitalista de hoje, mesmo o tempo livre é usado para se ganhar mais dinheiro em nome do consumo, isto é, férias caras, TV a cabo com tela grande... ''Comprimimos cada vez mais o lazer em nome do próprio lazer'', lamenta Tânia.

Revolução de afetos

A cisão entre obrigação e lazer se concretiza na Revolução Industrial, quando a fábrica isola o trabalho longe do espaço doméstico. E a criança, por sua vez, é mandada para a escola, longe dos adultos. “Ocorre uma revolução dos afetos e ali se separa o que é de criança do que é de adulto. A criança, que também trabalha, ainda pode brincar, o adulto não”, observa Tânia. É quando nasce o conceito de criança, com a posterior criação de classificações pejorativas como criancice, ou “só de brincadeirinha”. “Aí também surge a pergunta: ‘o que você vai ser quando crescer?’, como se a infância não tivesse valor em si mesma”, aponta a pesquisadora.

A partir do século 17 passa a haver um cada vez maior disciplinamento dos momentos de lazer, separados por faixa etária e por dias da semana (sábado e domingo). Nas escolas, por exemplo, a brincadeira está no recreio, para os trabalhadores, no happy hour.

Aquaplay e pega-varetas

Mesmo que os ensaios já sejam um momento de prazer, os músicos da banda de rock Moptop, para relaxar, invariavelmente, terminam brincando. Sejam jogos de tabuleiros ou simples e animados carteados. “Somos bem saudosistas. Gostamos de tudo dos anos 80, a década de nossa infância, e de jogos como aquaplay e pega-varetas”, diz o guitarrista e vocalista (e também webdesigner) Gabriel Marques. Gabriel não gosta de video games, pois prefere jogos com interação entre os jogadores. Mesmo assim, no site da banda, criado por ele e pelo guitarrista e designer Rodrigo Curi, é possível jogar o clássico Pacman. Já o baixista e desenhista Daniel Campos é fã de Desafino, Gamão e Imagem e Ação. Craque com os pincéis e canetas, Daniel está finalizando as ilustrações para um RPG (role playing game) brasileiro. “A graça dos jogos é que simulam a vida. Têm sorte e estratégia. E regras bem claras também, mas se pode ousar mais”, filosofa Mario Mamede, baterista e gerente de tecnologia. Sem saber, o músico está afinado com o filósofo holandês Johan Huizinga, autor do livro Homo Ludens, que argumenta que todas as atividades humanas, como a filosofia, a guerra e a arte não passam de um jogo.

Gincanas cariocas

De fato, as atividades lúdicas não estão ligadas simplesmente ao prazer, e, como sabem os educadores, podem ser uma forma divertida de aprender, em todas as idades. A comunidade francesa no Rio descobriu que organizar gincanas pode ser uma excelente forma de fazer os moradores de passagem pela cidade descobrirem detalhes curiosos da cultura e dos costumes locais. “É uma forma de lazer diferente do comum, instrutiva e que possibilita conhecer o Centro a pé”, explica Christine Lemoine, que, ao lado de Françoise Jacquin e Isabelle Genot fez da organização da brincadeira uma outra brincadeira. Foram quatro meses de trabalho, nos horários de folga das três, para criar provas a serem realizadas ao longo de um percurso que ia do MAM ao Saara, passando pelo Largo da Carioca, a Cinelândia, a Lapa e a Praça 15.

Ao longo do caminho, os participantes tinham que identificar as figuras históricos das estátuas, os sons de instrumentos típicos do samba, responder a perguntas como qual a santa padroeira do Brasil, aprender a jogar peteca, brincar de mímica e cumprir tarefas como achar e levar uma piranha e línguas de sogra. O grupo vencedor, do qual faziam parte Jorge Ortigão, 72, Dominique Picavet, 55, Izolete Raisson, 60 e Alain Raisson, 64, entre outros, ganhou prêmios como redes e cachaças. “O divertido é que encontramos pessoas com interesses comuns e descobrimos a cidade através de uma brincadeira”, diz a agente de viagem Dominique Picavet.

Altos e baixos

A reunião de amigos é outro ponto essencial dos jogos e brincadeiras. Em suas pesquisas, a psicopedagoga Tânia Fortuna descobriu que a palavra brincar vem do latim vínculum. “São atividades que sugerem contato, ligação com o outro, o mundo e consigo próprio.” A vocação das brincadeiras para juntar pessoas foi descoberta por acaso pelo promotor de justiça de São Paulo Mauro Alvarenga, 41. Há três anos, por puro hobby, ele começou a fazer um site sobre gamão, seu jogo preferido. Começou então a pesquisar sobre jogos antigos, e transformou seu site, www.jogos.antigos.nom.br, em uma verdadeira enciclopédia sobre todo tipo de jogo, com tópicos como jogos de tabuleiro, jogos de boteco, jogos de rua, jogos matemáticos etc. Hoje, tem 60 mil acessos por mês e, entusiasmado pela participação, criou a confraria Dom Alfonso X, em homenagem ao nobre espanhol que, no século 13, compilou pela primeira vez em livro os jogos populares da época – a edição original está no Museu do Prado.

A confraria agrega médicos, engenheiros e advogados que antes se queixavam de não ter com quem jogar. Nos encontros, joga-se gamão, xadrez, damas e é onde Mauro aproveita para divulgar jogos menos conhecidos, como o Fanorona, Oscar (espécie de damas mais sofisticada), ou o Fecha a Caixa, jogo com dados típico da Normandia. “Quando criança, adorava jogar, mas não admitia perder”, lembra Mauro, que brinca apenas pelo prazer, e não admite apostas na confraria. “Nosso objetivo é uma reunião com diversão, o tipo de coisa que diminuiu com a TV e a violência.” O objetivo do site é ajudar a divulgar para as novas gerações, que nascem na frente do computador e muitas vezes não conhecem o vizinho de porta, os jogos tradicionais, que exigem mais do que simplesmente apertar um botão. “Com a idade, a gente aprende até a ser um bom perdedor”, brinca Mauro. Mais uma razão para brincar e jogar. Pois aquele que aprende que não pode ganhar todas, certamente vai se estressar bem menos com os altos e baixos da vida.

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