| Façam
suas apostas
Ganhar ou perder é uma maneira de lidar
com os altos e baixos da vida
Clarisse Meireles
Ah, mas isso é coisa de criança! Cedo
ou tarde, ali pela adolescência, todo mundo se
depara com a sentença de morte da própria
infância. De repente, o mundo passa a exigir que
se deixe para trás uma série de ''coisas
de criança'', que não condizem com uma
postura mais madura, de crescentes responsabilidades
- que hoje já alcançam muitos pequenos,
às voltas com agendas de verdadeiros executivos.
Na idade adulta, numa troca compulsória, saem
os jogos e as atividades lúdicas em geral e entram
trabalho, trabalho e trabalho. Para se ter uma idéia,
o segmento de jogos para jovens e adultos corresponde
a apenas 20% das vendas da Grow, a maior fabricante
de jogos do país. Desses, o mais vendido é
War, com 120 mil unidades por ano - um jogo de guerra
e conquista, cujo recorde pode render boas teses sobre
o ser humano. Em seguida, vêm Perfil, Imagem &
Ação e Master.
Felizmente, muitos adultos já aprenderam que,
para recarregar as baterias, nada é melhor do
que brincar. ''O que causa cansaço e estresse
não é o excesso de trabalho, mas a falta
de diversão'', defende a psicopedagoga Tânia
Ramos Fortuna, coordenadora do projeto ''Quem quer Brincar?'',
da Faculdade de Educação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Segundo ela, mais do que
os momentos de ócio, conceito muito em voga depois
de consagrado pelo sociólogo italiano Domenico
de Masi, o ato de brincar afasta estresse e ansiedade,
e exercita a criatividade.
Para o psicanalista inglês Donald Winnicott,
a brincadeira do adulto está relacionada a sua
capacidade de lidar, de forma lúdica, com seus
próprios pensamentos, e é um espaço
fundamental para exercer a criatividade e o humor. São
estas ocasiões de descontração,
lembra Tânia, que permitem subverter o tempo cronológico,
linear. E sentimos o kairós, que, segundo o conceito
grego, é um tempo sem tempo, cuja passagem desafia
o relógio. ''É aquela coisa: parece que
as horas passam mais rápido, ou mais devagar'',
explica a pesquisadora.
No Rio, uma parada obrigatória para os fãs
de jogos são os pubs. No Shenanigan's da Barra
e de Ipanema, por exemplo, o cardápio de opções
vai de dardos a sinuca, passando pelo já tradicional
quiz, jogo de perguntas de conhecimentos gerais que
lota a casa de grupos ávidos por testar sua cultura
- muitas vezes inútil, o que deixa a coisa ainda
mais divertida. A cada semana, 25 grupos de quatro pessoas
se esforçam em responder às 20 perguntas,
e o participantes, quase sempre jovens, muitos turistas,
mostram-se concentrados como se disputassem o torneio
de suas vidas.
As questões abrangem de nomes de atores e personagens
de filmes B até informações surreais
como a melhor forma de fazer com que uma meia pare de
desfiar (esmalte de unha, para quem não sabe)
até o significado da sigla BMW (Bayerische Flugzeug-Werke).
Os prêmios disputados são uma rodada de
bebidas, um aperitivo, uma camisa do bar e R$ 200 de
bônus para ser usado na casa. ''Mas o que menos
importa é o prêmio. Gosto mesmo da adrenalina'',
diz o engenheiro carioca Alexandre Espínola,
33, que gosta da descontração e jura que
não vai no bar para azarar. Se é assim,
pode-se dizer que Alexandre é um viciado em adrenalina.
Um dos maiores habitués das mesas de Ipanema,
Alexandre já venceu a competição
26 vezes (!), e na segunda-feira estava no lugar acompanhado
dos amigos Yuri Justiniano, economista boliviano, e
Shannon Toginni, analista financeira americana, ambos
de 34 anos, que trabalha no Rio. ''Este jogo é
também uma forma de se manter atualizado'', diz
Yuri. ''A vida tem que ser balanceada entre trabalho
e diversão'', opina.
Este equilíbrio é hoje uma luta diária
de quem chega do trabalho esgotado, mas quase se obriga
a fazer algum ''programa'' para não se sentir
totalmente escravizado. Mas nem sempre houve essa dicotomia
lazer versus trabalho. Até a Idade Média,
trabalho e divertimento eram bastante misturados. As
crianças estavam sempre com os adultos, tanto
nos momentos de trabalho, como nas horas de brincadeiras
e festividades sazonais, competições e
torneios. As refeições eram demoradas,
festivas, com consumo de bebidas e descanso depois.
''Para se ter uma idéia'', diz a pesquisadora
Tânia Fortuna, ''trabalhavam-se 700 horas por
ano. Hoje, são em média 40 horas por semana,
ou 1.800 horas anuais.'' Até meados do século
passado, havia a ilusão de que, com a automação,
o tempo de serviço diminuiria. Mas só
aumentou. No mundo capitalista de hoje, mesmo o tempo
livre é usado para se ganhar mais dinheiro em
nome do consumo, isto é, férias caras,
TV a cabo com tela grande... ''Comprimimos cada vez
mais o lazer em nome do próprio lazer'', lamenta
Tânia.
Revolução de afetos
A cisão entre obrigação e lazer
se concretiza na Revolução Industrial,
quando a fábrica isola o trabalho longe do espaço
doméstico. E a criança, por sua vez, é
mandada para a escola, longe dos adultos. “Ocorre
uma revolução dos afetos e ali se separa
o que é de criança do que é de
adulto. A criança, que também trabalha,
ainda pode brincar, o adulto não”, observa
Tânia. É quando nasce o conceito de criança,
com a posterior criação de classificações
pejorativas como criancice, ou “só de brincadeirinha”.
“Aí também surge a pergunta: ‘o
que você vai ser quando crescer?’, como
se a infância não tivesse valor em si mesma”,
aponta a pesquisadora.
A partir do século 17 passa a haver um cada
vez maior disciplinamento dos momentos de lazer, separados
por faixa etária e por dias da semana (sábado
e domingo). Nas escolas, por exemplo, a brincadeira
está no recreio, para os trabalhadores, no happy
hour.
Aquaplay e pega-varetas
Mesmo que os ensaios já sejam um momento de
prazer, os músicos da banda de rock Moptop, para
relaxar, invariavelmente, terminam brincando. Sejam
jogos de tabuleiros ou simples e animados carteados.
“Somos bem saudosistas. Gostamos de tudo dos anos
80, a década de nossa infância, e de jogos
como aquaplay e pega-varetas”, diz o guitarrista
e vocalista (e também webdesigner) Gabriel Marques.
Gabriel não gosta de video games, pois prefere
jogos com interação entre os jogadores.
Mesmo assim, no site da banda, criado por ele e pelo
guitarrista e designer Rodrigo Curi, é possível
jogar o clássico Pacman. Já o baixista
e desenhista Daniel Campos é fã de Desafino,
Gamão e Imagem e Ação. Craque com
os pincéis e canetas, Daniel está finalizando
as ilustrações para um RPG (role playing
game) brasileiro. “A graça dos jogos é
que simulam a vida. Têm sorte e estratégia.
E regras bem claras também, mas se pode ousar
mais”, filosofa Mario Mamede, baterista e gerente
de tecnologia. Sem saber, o músico está
afinado com o filósofo holandês Johan Huizinga,
autor do livro Homo Ludens, que argumenta que todas
as atividades humanas, como a filosofia, a guerra e
a arte não passam de um jogo.
Gincanas cariocas
De fato, as atividades lúdicas não estão
ligadas simplesmente ao prazer, e, como sabem os educadores,
podem ser uma forma divertida de aprender, em todas
as idades. A comunidade francesa no Rio descobriu que
organizar gincanas pode ser uma excelente forma de fazer
os moradores de passagem pela cidade descobrirem detalhes
curiosos da cultura e dos costumes locais. “É
uma forma de lazer diferente do comum, instrutiva e
que possibilita conhecer o Centro a pé”,
explica Christine Lemoine, que, ao lado de Françoise
Jacquin e Isabelle Genot fez da organização
da brincadeira uma outra brincadeira. Foram quatro meses
de trabalho, nos horários de folga das três,
para criar provas a serem realizadas ao longo de um
percurso que ia do MAM ao Saara, passando pelo Largo
da Carioca, a Cinelândia, a Lapa e a Praça
15.
Ao longo do caminho, os participantes tinham que identificar
as figuras históricos das estátuas, os
sons de instrumentos típicos do samba, responder
a perguntas como qual a santa padroeira do Brasil, aprender
a jogar peteca, brincar de mímica e cumprir tarefas
como achar e levar uma piranha e línguas de sogra.
O grupo vencedor, do qual faziam parte Jorge Ortigão,
72, Dominique Picavet, 55, Izolete Raisson, 60 e Alain
Raisson, 64, entre outros, ganhou prêmios como
redes e cachaças. “O divertido é
que encontramos pessoas com interesses comuns e descobrimos
a cidade através de uma brincadeira”, diz
a agente de viagem Dominique Picavet.
Altos e baixos
A reunião de amigos é outro ponto essencial
dos jogos e brincadeiras. Em suas pesquisas, a psicopedagoga
Tânia Fortuna descobriu que a palavra brincar
vem do latim vínculum. “São atividades
que sugerem contato, ligação com o outro,
o mundo e consigo próprio.” A vocação
das brincadeiras para juntar pessoas foi descoberta
por acaso pelo promotor de justiça de São
Paulo Mauro Alvarenga, 41. Há três anos,
por puro hobby, ele começou a fazer um site sobre
gamão, seu jogo preferido. Começou então
a pesquisar sobre jogos antigos, e transformou seu site,
www.jogos.antigos.nom.br, em uma verdadeira enciclopédia
sobre todo tipo de jogo, com tópicos como jogos
de tabuleiro, jogos de boteco, jogos de rua, jogos matemáticos
etc. Hoje, tem 60 mil acessos por mês e, entusiasmado
pela participação, criou a confraria Dom
Alfonso X, em homenagem ao nobre espanhol que, no século
13, compilou pela primeira vez em livro os jogos populares
da época – a edição original
está no Museu do Prado.
A confraria agrega médicos,
engenheiros e advogados que antes se queixavam de não
ter com quem jogar. Nos encontros, joga-se gamão,
xadrez, damas e é onde Mauro aproveita para divulgar
jogos menos conhecidos, como o Fanorona, Oscar (espécie
de damas mais sofisticada), ou o Fecha a Caixa, jogo
com dados típico da Normandia. “Quando
criança, adorava jogar, mas não admitia
perder”, lembra Mauro, que brinca apenas pelo
prazer, e não admite apostas na confraria. “Nosso
objetivo é uma reunião com diversão,
o tipo de coisa que diminuiu com a TV e a violência.”
O objetivo do site é ajudar a divulgar para as
novas gerações, que nascem na frente do
computador e muitas vezes não conhecem o vizinho
de porta, os jogos tradicionais, que exigem mais do
que simplesmente apertar um botão. “Com
a idade, a gente aprende até a ser um bom perdedor”,
brinca Mauro. Mais uma razão para brincar e jogar.
Pois aquele que aprende que não pode ganhar todas,
certamente vai se estressar bem menos com os altos e
baixos da vida.
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