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RPG  

Há muito tempo, venho sendo "cobrado" pelas pessoas que visitam o site, pedindo a inclusão do RPG.
Nunca joguei RPG. Em razão da minha idade, não fez parte da minha infância e/ou juventude o RPG. Assim, fui "enrolando", sem muita paciência para pesquisar e incluir este jogo.

Mas em Julho do ano de 2007, recebi mais uma "cobrança". Como sou muito "cara-de-pau", afirmei ao visitante que estava sem tempo para fazer a pesquisa. E com uma "cara-de-pau" ainda maior, ousei pedir que ELE fizesse um texto para o site.

E foi assim. O amigo-virtual PEDRO CHIAPPINI, mandou o texto que agora publico. O Pedro, formado em administração e marketing, além de ser mestre em psicologia social, joga RPG desde os 12 anos, sendo "mestre" de jogos desde os 15.
Já escreveu uns 15 roteiros de RPG que, infelizmente, ainda não foram publicados (alguém se habilita?).

AO PEDRO, O MEU MUITO OBRIGADO!!!

São amigos como este, que me animam a manter o site no ar!!!


O policial Ricardo Cruz sobre rapidamente a ladeira do Morro do Assustado, ele leva sua arma e seu colete, sabe que sua munição está acabando, mas sua Coragem e sua Agilidade são suficientes para que ele continue a empreitada e, melhor, sem ser acertado pelas balas que cruzam o ar, disparadas pelos traficantes que atiram lá de cima, entocados. Seu grupo, formado pelos também policiais João das Flores, Arlindo Silva Santos e Marcos Casamata, tem como objetivo chegar aos traficantes, invadir seu esconderijo, prendê-los.

Mas eles vêem enfrentando muitas dificuldades: existem carros virados pelo caminho que exigem constantes desvios e os traficantes não estão visíveis, eles não sabem onde atirar... Até uma das balas traçantes acertam Ricardo, que cai. ‘Os corajosos são os primeiros a morrer’, os policiais escutam de longe, e quando percebem, estão cercados, fim da missão...”

Não leitor, felizmente não é uma cena de violência nas grandes cidades brasileiras, é uma sessão de RPG. Ricardo é uma personagem e o jogador que o criou e interpretava, apesar da tristeza em ver sua criação “sair do jogo”, não sofreu nenhuma arranhão!

 

HISTÓRIA E CONCEITO

 

Conta-se que o RPG (Roleplaying Game) foi inventado nos EUA, em 1974[1]. Na verdade, é extremamente difícil saber a origem desse gênero lúdico. Por um lado, existem poucos registros ou estudos sobre isso. Por outro, e esse é o principal motivo, ele surgiu de uma conjunção entre jogos de batalha (como o War), da interpretação teatral e da literatura (conto, folhetim etc)[2]: é quase impossível precisar em que momento esse cruzamento se consolidou.

De qualquer maneira, o RPG é um jogo tipicamente norte americano: é dos EUA que vem o primeiro e mais famoso (além de mais vendido) RPG de todos até hoje – Dangeons & Dragons[3], e aquele que é considerado o maior autor de RPG, o inventor de GURPS (Generic Universal Roleplaying System), Steve Jackson.

Uma observação interessante: o RPG tem uma “pré-história”, os livros-jogos. Nestes, um leitor-jogador constrói uma aventura própria a partir de algumas alternativas de desenvolvimento básicas dadas pelo livro. Caso escolha as alternativas corretas, ele chega até o final da história e vence o jogo.

Mas o RPG, propriamente dito, é bem diferente. Constitui-se um modo de produção de narrativas fictícias, que se dá em grupo e de forma oral e, ao mesmo tempo, escrita. Mas como? Vamos explicar de duas maneiras: os elementos que compõe um RPG e como acontece uma sessão deste jogo.

 

ELEMENTOS DO RPG

 

Elementos básicos

Todo RPG é composto por, pelo menos, cinco elementos básicos:

1. Uma ambientação: que caracteriza o mundo onde os jogadores interpretam seus personagens, os seres que existem, a natureza e a geografia, a economia e as formas de organização social etc;

2. Um sistema de regras: que define as “leis” de funcionamento daquele mundo, incluindo as leis naturais – para o caso de um mundo fictício, não é necessário que ele “funcione” como o nosso;

3. Os personagens: tanto os que são representados pelos jogadores (criados por eles ou escolhidos entre uma gama de opções pré-definidas) quanto os demais com os quais eles interagem;

4. O enredo: motivo, objetivo, cenário e linhas gerais para condução da trama. A narrativa, no entanto, fica em aberto, e é construída pelos jogadores durante o jogo e através de seus personagens;

5. Os recursos de jogo: dados (de 4, 6, 8, 10, 12, 20 e 100 faces, dependendo do jogo), papel, lápis, borracha e caneta. Alguns jogos requerem recursos áudiovisuais, roupas, fantasias etc.

 

Mestre do jogo

Além dos cinco elementos básicos acima, e do que é óbvio – a presença de um ou mais jogadores, é uma característica marcante dos RPG a existência de um Mestre (também chamado Mestre do Jogo).

A função do mestre é criar a ambientação, definir as regras, criar os personagens dos jogadores (junto com eles ou sozinho) e criar e controlar os “personagens não-jogadores”, definir o enredo básico sobre o qual a produção da ficção narrativa irá se desenvolver... Ou seja, o Mestre é um “deus” do RPG.

Alguns jogos encontrados no mercado já trazem ambientações, regras e/ou personagens prontas, facilitando o trabalho do Mestre. Alguns trazem inclusive enredos básicos; inspirados em livros, filmes, notícias de jornal...

 

UMA SESSÃO DE RPG

 

Existem muitas variações, mas o roteiro a seguir descreve uma sessão de RPG “mais completa possível”:

1. A primeira coisa a fazer é criar uma ambientação e um sistema de regras. Caso se utilize um jogo que já os traz prontos, basta que o Mestre e os jogadores os leiam e entendam juntos;

2. Depois disso, para o Mestre, vem a criação e a descrição do enredo para os jogadores. Novamente, caso o jogo utilizado já traga um enredo pronto, não é preciso reinventar a roda...

3. Em seguida, são criados (ou escolhidos) os personagens, através de uma ficha de personagens. Nesse momento, são definidas suas características: desde a altura e a história de vida, até o físico e a personalidade;

4. Os jogos transcorrem partindo do enredo básico. Geralmente os personagens: enfrentam perigos e desafios condizentes com a ambientação escolhida; travam batalhas, desvendam enigmas e/ou solucionam outros tipos de problemas, que se colocam entre eles e o objetivo final; e cumprem (ou não!) a missão inicial. A interpretação e a criatividade dos jogadores contam muito nos RPG, talvez por isso chamado “Jogo de Representação”.

5. A atuação dos personagens no jogo se dá mediante índices que descrevem suas características naquele mundo (como força, destreza, inteligência, poder mágico etc), definidos na criação do personagem;

6. Os personagens podem ter morrido ou falhado durante a aventura. Caso isso não aconteça, são distribuídos pontos de evolução, de acordo com a atuação de cada um, e as aventuras podem continuar...

 

O USO DOS DADOS

 

Os dados no RPG têm uma função importantíssima: dar vida ao sistema de regras, inserindo nele a dinamicidade e a aleatoriedade (ou “as forças misteriosas e incontroláveis da vida”, segundo já ouvi de alguns Mestres). Sem as jogadas de dados as regras não funcionam, as batalhas não podem distinguir vencedores e vencidos, os enigmas não podem ser desvendados, os problemas não são resolvidos. Enfim, os dados são o que dá movimento ao RPG. O RPG, como já citei, utiliza dados de 4, 6, 8, 10, 12, 20 e 100 faces, dependendo das regras adotadas, do “risco” que se quer colocar em uma ação ou situação de jogo etc. Mas, embora a regra do RPG dependa tanto dos dados, ele não pode ser considerado um jogo de azar: o que conta, sobretudo, é a estratégia e a interpretação dos jogadores – alguns RPG mais atuais possuem poucas regras básicas[4], outros nem sequer possuem regras e não usam dados, levando ao extremo o caráter teatral de uma sessão de jogo[5]...

 

TEMAS MAIS FREQUENTES E RPG MAIS FAMOSOS

 

O temas mais freqüente nos jogos de RPG é, sem dúvida, a “fantasia medieval”, principalmente os inspirados nas obras de J.R.R Tolkien (com magos, elfos, duendes, anões, fadas, orcs; florestas mágicas, cavernas de tesouros, guerras entre reinos ou seres “do bem o do mal” etc). Outros temas como mistério, investigação e ficção científica também são comuns. Abaixo, uma lista com os RPG mais famosos e acessíveis no Brasil. Não uma lista completa, mas, começando por estes, já é possível conhecer o maravilhoso mundo dos Jogos de Personificação[6]...

- Tagmar: RPG brasileiro de fantasia medieval;

- Desafio dos Bandeirantes: RPG brasileiro ambientado em um Brasil colonial fantástico, repleto de criaturas e locais criados a partir de mitos e lendas negras e indígenas;

- Opera, Zip, Sigma: RPG brasileiros, sistemas de regras genéricas (no estilo GURPS porém mais simples);

- Dangeons & Dragons e Advanced Dangeons & Dragons: RPG norteamericano de fantasia medieval, com forte caráter bélico. Principal inspiração para jogos de computador baseados em RPG;

- Vampiro – a máscara, Lobisomen – o apocalipse e Mago – a Ascensão: RPG norteamericanos dramáticos sobre os temas dos vampiros e dos lobisomens, respectivamente. Utilizam o mesmo sistema de regras (o Storyteller, que enfatiza mais a interpretação do que as regras em si) e é possível jogá-los simultaneamente;

- GURPS: sistema de regras genéricas aplicáveis a diversas ambientações. O GURPS é composto de dois tipos de livros: um módulo de regras básicas para qualquer mundo; diversos módulos com ambientações e regras complementares. Muitos Mestres gostam de criar seus próprios mundos utilizando as regras de GURPS.

 

OBSERVAÇÕES FINAIS

 

Os RPG são jogos “naturalmente mágicos”. A existência da magia, em diversas formas (feitiços, poderes psíquicos e paranormais, capacidades especiais dadas por mutações genéticas...) faz parte do jogo, faz parte do mundo normal! O RPG não é um fingimento, é um jogo que considera a magia como fator inerente, criador de muitas possibilidades. Por isso é um jogo ilimitado quanto aos personagens e situações que podem existir!

Existem RPG de outras formas: computador, livros jogos, cartas etc. Para conhecê-los bata consultar os sites da Internet indicados na nota 6, acima. Mas, um aviso: uma das características diferenciais do RPG é o contato direto entre pessoas e a interpretação que isto permite. Outra é a possibilidade de criação ilimitada de regras e ambientações. O contato mediado pela Internet ou computador, as aventuras solo e um jogo limitado por cartas pré-definidas talvez não mereçam ser chamados de RPG. Estes constituem outro tipo de jogo.

Uma coisa empolgante nos RPG é que, a despeito de poder utilizar regras e ambientações já criadas, qualquer um (qualquer um mesmo, não é preciso ser especialista, mas contar com muita imaginação, vontade de criar e alguma experiência...) pode inventar seus próprios mundos e suas próprias regras. Quando entre amigos, melhor ainda!

Os RPG vêm sendo utilizados na educação, pelo menos no Brasil, para incentivar a imaginação e o pensamento abstrato das crianças e adolescentes, e também como recurso para o ensino de arte, história e outras matérias[7]. Também tem se tornado comum nas empresas, como ferramenta para treinamentos. As potencialidades do RPG, no entanto, parecem ter sido ainda pouco exploradas: para além de uma “mecânica de aprendizado escolar ou empresarial” o RPG poderia ser um processo de reflexão e de crítica sobre a sociedade, as relações, a vida...


 

[1] Isso é dito na primeira edição do GURPS (Generic Universal Roleplaying System) (Devir, 1991).

[2] Ver o estudo de Sônia Rodrigues: “Roleplaying Game” (Bertrand Brasil, 2004).

[3] Dangeons & Dragons (D&D): primeiro RPG publicado nos EUA na década de 70, inspirado pelas obras de J.R.R Tolkien, especialmente “O Senhor dos Anéis”. O desenho “Caverna do Dragão” é uma adaptação televisiva de D&D.

[4] É o caso dos jogos do sistema Storyteller: Vampiro, Lobisomen e Mago.

[5] Fica a indicação para os interessados...

[6] Consultar os sites www.devir.com.br, www.rpgonline.com.br, www.espacorpg.com.br , www.rederpg.com.br, falerpg.com.br/portal/modules/news entre outros. Uma página excelente fica em www.nautilus.com.br/~ensjo/rpg.

[7] Ver os anais do Simpósio RPG e Educação (Devir, 2004). Existem edições mais atuais do Simpósio.

 

 

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